Disperse blue

Gustavo Empinotti
3 min readJan 26, 2021
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“Você nasceu para ser principezinho. Não nasceu para ser pobre.”

Eu a encarei, confuso. Acho que ela está acostumada com risadas — o exame custa 1600 reais. Ela tentou de novo:

“Vai ter que casar com uma menin- com alguém que limpe a casa pra você.”

A dermatologista estava tentando me explicar, aparentemente incapaz de fazê-lo sem ofender grandes grupos de pessoas, que eu não devia limpar a casa porque as manchas vermelhas na minha pele — sobretudo nas minhas mãos — eram provavelmente causadas por sensibilidade à umidade. Nem de luva, “porque aí sua mão sua e o próprio suor também causa a reação”. É o meu perfil autoimune — tenho rinite também (desde 2020 comumente confundida com Covid). Autoimunidade é a rejeição de células normais do corpo por parte do sistema imunológico, e seu consequente ataque. Fogo amigo.

Ela tinha acabado de retirar das minhas costas a bateria de 36 substâncias às quais eu poderia ter alergia. Após meus 2 dias a meios banhos (não podia molhar as costas), ela identificou duas substâncias que meu corpo rejeita. A primeira é o timerosal, conservante usado em vacinas. Eu não gosto muito de falar sobre isso - metade das pessoas o interpreta como uma crítica a vacinas, e a outra metade se sente justificada em criticá-las.

A outra substância se chama disperse blue: um corante azul, muito usado em roupas. “Como calças jeans”, ela disse, apontando para o par que eu estava vestindo.

Em resumo, eu sou alérgico a água, vacinas, e à cor azul.

Eu vinha tentando descobrir a origem das minhas alergias havia tempo. Alguns anos atrás um dermatologista arrancou com uma lâmina uma pequena fatia da minha cara para examinar no microscópio. Ele a deixou cair no chão, e não achou mais; teve que tirar outra. Ainda dá para ver um pequeno vale ao lado da minha narina direita. Ele não concluiu nada.

Já tentei parar o glúten porque dizem que agrava doenças autoimunes. Não ajudou. Ou talvez eu não tenha mantido a dieta por tempo suficiente antes de decidir que a probabilidade de ser o glúten era a mesma de ser o amendoim ou o sabão ou qualquer outra coisa; ou porque se, além de animais, eu também parasse de comer trigo, eu talvez fosse oficialmente proibido de pisar em casa. Já tentei óleo essencial, chá de camomila, pegar mais sol, pegar menos sol.

Enquanto eu cogitava me desfazer de todas as minhas roupas azuis (e portanto de 80% do meu armário), fui me lembrando de todas essas tentativas de acabar com as irritações, e de todas as vezes que elas me incomodaram. Todas as vezes que alguém sugeriu, genialmente, “passar um creme”, “ver isso aí”, cuidar da minha nutrição (é fascinante o quanto as pessoas se importam com a sua nutrição quando sua dieta as obriga a analisar as próprias escolhas).

Em comum entre esses episódios está o fato de que as alergias não incomodam a mim diretamente; quem me incomoda são as pessoas. No fundo, eu nunca liguei para os vermelhos. Mas eles estão lá. Então por que não resolvê-los — por que não gastar milhares em tentativas de controlá-los que eu já sabia que iriam falhar.

Disperse blue. Um nome extremamente lírico para um composto químico alergênico. Uma toxina poética.

Eu sempre lembro do disperse blue quando olho pro mar. Eu sempre busco o mar quando me sinto como meus leucócitos — antipático a mim mesmo. Eu encaro o mar até lembrar que as ondas que estão molhando meus pés dependem, absurdamente, da lua que eu estou vendo nascer, e lembro que as vozes na minha cabeça me incomodam mais que os problemas que elas insistem em apontar. E que, como as ondas, elas vêm e vão; e se eu apenas esperar a próxima lua, talvez elas, enfim, não voltem mais.

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Gustavo Empinotti

Passo a maior parte do meu tempo livre lendo, escrevendo e tendo crises existenciais. Formado em ciências políticas e matemática